
Recorde Mundial de 1995 a 1998 de 100Km - com o tempo de 6h18' 09
Recordista das Américas 100Km, com 6h18'09 e de 24 Horas com 273Km
Melhor tempo em campeonato Mundial de 100Km, com o tempo de 6h18'09 – Holanda
Recordista das Américas, brasileiro e Sul-americano de 100Km e de 24 horas
Pista 273 Km800m – China;
Rua 270 Km200m – Brasil;
Recordista do Mundo de 135 Milhas – Badwater
Depoimento de Valmir Nunes
Valmir Nunes conta momento a momento como foi quebrar o Recorde Panamericano na prova de 24 Horas , em que o ultramaratonista percorreu 273,8 quilômetros. O doutor Milton Mizumoto, da clínica Mizu Motion, explica o que aconte com o seu corpo durante a corrida.
Primeira parte
0 – 4 horas – 53 quilômetros percorridos
Nunes: Não falta fôlego e não há dor nas pernas. Nesse momento, a cabeça está concentrada em estabelecer e manter um ritmo. Além disso, existe uma atenção constante com a hidratação do corpo, que é feita a cada quinze minutos com água, isotônicos ou até mesmo refrigerante.
Mizumoto: A partir dos 30 minutos, a contribuição energética provém mais da queima da gordura do que da queima da glicose. Os alvéolos pulmonares se abrem mais e captam maior quantidade de oxigênio, facilitando a oxigenação dos músculos. Acontece uma abertura dos vasos capilares para que os músculos recebam mais oxigênio e nutrientes energéticos. A partir de 60 minutos, começa a liberação de beta endorfina, substância que dá ao cérebro a sensação de bem-estar.
Segunda parte
4 – 8 horas – 104 quilômetros percorridos
Nunes: Aparecem as primeiras dores nas laterais das coxas. É necessária maior concentração para manter o ritmo. O atleta começa um jogo mental de motivação: "Cheguei nas oito horas, agora faltam só quatro para completar doze horas".
Mizumoto: Acontece uma ligeira desidratação e o sangue fica mais denso em decorrência disso, dificultando o aporte de oxigênio e nutrientes, e aumentando a concentração de ácido láctico nos músculos. Esse quadro leva à dor muscular.
Terceira parte
8 – 12 horas – 150 quilômetros
Nunes: O atleta começa a ingerir comida, sempre em pequenas quantidades: meia barra de cereal ou chocolate, meia banana, uva passa ou nozes. O corredor não pode sentir fome – a fome é um indicativo de que a energia do seu corpo está se esgotando . Isso é um problema, porque não dá para repor essa energia durante a corrida. A dor nas coxas continua estável. Mantém o jogo mental de motivação.
Mizumoto: Antes que o atleta comece a ter uma hipoglicemia (queda na taxa de açúcar no sangue), ele começa a repor suas reservas com alimentos de fácil digestão, principalmente carboidratos. Isso evita a tontura ou desmaio por hipoglicemia, já que o cérebro só se alimenta de glicose .
Quarta parte
12 – 16 horas – 193 quilômetros
Nunes: A dor aumenta e as pernas começam a ficar pesadas. O processo de alimentação e hidratação continua a cada quinze minutos. O cérebro passa a emitir um sinal pedindo para parar – "parece que uma parte de você quer desistir", diz. A corrida se transforma em uma luta interna entre a vontade de se superar e o desejo de desistir.
Mizumoto: A dor aumenta em decorrência não só do acúmulo de ácido láctico mas também devido à lesão causada nas proteínas das fibras musculares. O cérebro reconhece essa dor e tenta fazer com que o corredor pare com o esforço físico como forma de auto-preservação.
Quinta parte
16 - 20 horas – 232 quilômetros
Nunes: Esse é o momento mais crítico da prova. O atleta entra em transe e parece um zumbi correndo. Já ultrapassou todos os limites mentais e físicos. As articulações estão duras, a musculatura do corpo também endurece, as pernas doem mais e o rosto está pálido. A cabeça automatiza a corrida e o corredor passa a exigir um esforço maior do corpo todo, principalmente de seus braços e pernas.
Mizumoto: O atleta precisa transpirar para dissipar o calor produzido pela contração muscular. Isso agrava o processo de desidratação que já é maior do que a quantidade de água que o corredor consegue absorver. Com o aumento da desidratação, diminui a fluidez do sangue dentro dos vasos capilares, piorando ainda mais a dor. Há também um aumento da lesão por excesso de uso e impacto de toda a estrutura articular dos membros inferiores (ligamentos e cartilagens). O rosto fica pálido em função da diminuição na circulação.
Sexta parte
20 – 24 horas – 273,8 quilômetros
Nunes: Agora, o jogo mental de motivação é feito a todo instante. Isso ajuda a diminuir o desafio da "reta final" e a tornar a corrida mais fácil de terminar. O corredor começa a sonhar com um bom resultado e com as marcas que pode atingir se conseguir se esforçar ainda mais. A dor no corpo continua e as pernas estão mais pesadas. Desistir deixa de ser uma opção: ou o atleta termina ou "morre" ali mesmo.
Mizumoto: O bem-estar provocado pela beta endorfina não é mais suficiente para o alívio da dor. Nesse momento, se faz mais do que necessária a disciplina mental adquirida nos treinos. O atleta usa a motivação como principal fator para ignorar a dor.
Última hora
Nunes: A vontade de chegar e a expectativa de fazer um bom resultado criam um efeito psicológico que ameniza as dores e o cansaço. O competidor "ganha" uma energia extra para concluir a prova. Quando cruza a linha de chegada, o atleta passa alguns momentos sem sentir dor devido à emoção. Depois, ele sente dor e cansaço generalizados , podendo até desmaiar.
Mizumoto: Além da disciplina mental, o atleta tem um a descarga extra de adrenalina no sangue. Assim, ele consegue recrutar seus últimos depósitos de energia. Nessa hora, o corredor chega a correr até mais rápido do que antes , porque a adrenalina aumenta a freqüência cardíaca, a quantidade de sangue bomb e ada pelo coração e os músculos ficam mais velozes e potentes. Após a chegada, o nível de adrenalina diminui e o ácido láctico continua alto em razão do esforço final. Quando o atleta pára de vez , o sangue desce para os membros inferiores, diminuindo o fluxo sanguíneo no cérebro. Esta situação, conhecida como colapso vascular, é um a das principais causas da ocorrência de desmaios , após provas de longa duração.
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