quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Dean Karnazes no Brasil em 2008


Correr é fácil
Acompanhamos 48 horas da vida de Dean Karnazes, o "Homem Ultramaratona" durante sua primeira visita ao Brasil. Entre corridas de 24 horas na esteira, tentativas de recordes mundiais e cafés expresso sem açúcar, uma coisa ficou clara: é preciso muito mais que força nas pernas e no coração para ser um ícone do esporte

(Andrea Estevam)


DEAN NÃO TEM CARRO. Ele corre ou usa bike como meio de transporte. "Num estudo nos Estados Unidos, descobriram que 40% das viagens de carro têm menos de 4 quilômetros. Daria facilmente para as pessoas correrem essa distância. Assim tiraríamos quase metade dos carros da rua", defende.
A doutrina do "você também pode" de Dean começa em sua casa: os dois filhos dele correm. A filha enfrentou sua primeira prova de 10 quilômetros quando completou 10 anos, em 2007. Dean correu ao lado dela. "Foi a prova mais legal que eu já fiz na vida", ele conta. Mas e a responsabilidade de incentivar gregos e troianos, indiscriminadamente, a desafiarem seus próprios limites, alardeando que todos podem ser supercorredores? Pergunto a ele se por acaso os médicos esportivos ainda não diagnosticaram uma certa "síndrome Karnazes": filas de neocorredores lesionados nas portas dos consultórios ortopédicos, procurando ajuda com os livros de Dean embaixo do braço. "Não me preocupo porque o corpo sabe se proteger. Se a pessoa tenta ir longe demais, o corpo pára. Não há atalhos: é preciso se comprometer e se sacrificar, senão não vai conseguir. E isso não acontece só na corrida, mas em todas as áreas da vida", defende.
O limite físico de Dean ele próprio já descobriu: "Foi quando eu corri 560 quilômetros. Na terceira noite sem dormir, estava alucinando de sono e a dor era insuportável. Minhas pernas, minha cabeça, tudo doía - até a ponta do meu nariz. Mas, inexplicavelmente, fiz os últimos 10 quilômetros em 38 minutos. Não sentia mais dor alguma, o que prova que a mente controla tudo. Hoje só paro uma prova se perceber que vou fazer mal ao meu corpo. Bolhas e cãimbras? Eu passo correndo por cima delas", ri.
Um corpo quase incansável e uma mente capaz de fazer esse corpo seguir adiante - com os dois elementos, Dean é um espécime humano de endurance invejável. Essa habilidade não aparece só nas ultramaratonas: ele já encarou triathlons e terminou em terceiro lugar o último XTerra que disputou. "Acho que posso ser ainda melhor pedalando do que correndo. Sou muito musculoso para um corredor. Talvez eu dê uma chance para as provas de bike de longa distância, mas por enquanto meu foco é a corrida. A bike exige muito tempo de dedicação, são 2 horas só para aquecer. Uma corrida de 2 horas já é um ótimo treino." Além do volume de treinamento, Dean se preocupa com o perigo da velocidade que as duas rodas proporcionam. "Fiz uma prova de 24 horas de bike e gostei. Mas é bem mais perigoso. Se você está correndo há 20 horas e cai de sono, só rala os joelhos e as mãos. Se dorme em cima da bike, pode se quebrar inteiro", compara.

CHEGO DESCANSADA ao local da feira, onde Dean já corre há 2 horas e meia. Faltam só 21 e meia para ele terminar. A esteira se move a pouco mais de 8 quilômetros por hora, em ritmo de trote. No painel há uma garrafa de Gatorade, alguns sachês de carboidrato em gel, uma toalha. Ao seu lado, no chão, estão as frutas, a água com gás e a água-de-coco, e pares de tênis enfileirados. "É para eu trocar conforme meus pés forem inchando", ele me explica. Ao redor, outras seis esteiras são palco de uma disputa paralela em que equipes se revezam durante 24 horas, fazendo companhia a Dean.
A esperança de quebrar o recorde já está esmorecida. "Estou cansado e ainda meio desidratado do vôo. O ambiente aqui está quente, e vou dando várias entrevistas enquanto corro. Para completar, meu estômago está meio esquisito", diz. Mais tarde, seu estômago "viraria" de vez e ele precisaria de remédios para controlar a situação. Quilometragem final: pouco mais de 180 quilômetros (o recorde anterior era de 247,68).
A perspectiva de não conseguir realizar algo que se propôs não abala Dean. Enquanto muitos de nós preferimos nem tentar quando achamos que podemos falhar, Karno gosta de se expor a esse risco. "Se errar, aprendo. Se você não se forçar, não sabe quanto pode ir adiante. Eu comemoro o fracasso", afirma. Nessa busca pelo limite, Dean admite que neste ano deu uma exagerada. Ele se meteu a correr todas as etapas do circuito 4Deserts, com ultramaratonas disputadas em quatro desertos pelo mundo: Atacama (Chile), Gobi (China), Saara (África) e Antártica. Dean venceu no Atacama, mas ficou com o quarto lugar em Gobi. Entre as duas provas, disputou mais uma vez a Badwater, com outro quarto lugar. "Nunca alguém fez as quatro etapas num mesmo ano. Estou aprendendo, e do jeito mais difícil, que é muita coisa. Agora só penso em terminar as quatro", diz. "No ano que vem farei menos provas para ir melhor nelas. Quero disputar a Jungle Marathon, em outubro, no Brasil. Agora já sei o caminho para o seu país", brinca.
Mas até quando ele vai continuar nessa rotina insana, que no fim das contas o afasta do prazer puro de correr? "Estou ficando mais velho e mais lento, mas minha resistência está cada vez melhor. Quero continuar explorando meus limites para ver até onde eu chego. Se acordar um dia e não gostar mais de correr, eu paro. Senão, minha linha de chegada é um caixão de madeira."

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